A decisão de Marina Silva, Deputada Federal, de permanecer na Rede Sustentabilidade para disputar uma vaga no Senado por São Paulo, deveria ser, em teoria, um passo para estabilizar sua base política. No entanto, o anúncio feito no sábado, 4 de abril de 2026, acabou desencadeando uma crise pública inesperada. Em vez de recepção calorosa, a ex-ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima encontrou um diretório nacional perplexo e, digamos, bastante irritado.
Aqui está a questão: Marina anunciou sua permanência exatamente no prazo final da janela partidária, encerrando meses de boatos sobre sua saída. Mas, enquanto ela fala em "campo democrático plural", a cúpula do partido que ela mesma ajudou a fundar em 2015 fala em falta de diálogo. A situação é curiosa, para dizer o mínimo, já que a militância esperava que a decisão resolvesse a instabilidade, mas acabou expondo feridas profundas entre a fundadora e a atual gestão da sigla.
O contra-ataque do Diretório Nacional
Na terça-feira, 7 de abril de 2026, o diretório nacional da Rede não guardou as palavras. Em nota oficial nas redes sociais, a liderança expressou "indignação e perplexidade". Parece contraditório que um partido fique indignado por um de seus principais nomes decidir ficar, mas o problema não é a permanência, e sim a forma como ela aconteceu. Segundo a nota, Marina se recusou a dialogar com a direção do partido.
O comando da legenda, atualmente sob a liderança de Paulo Lamac (alinhado à deputada Heloísa Helena), afirmou que as especulações sobre a saída de Marina nunca partiram da cúpula eleita, mas sim do grupo da própria deputada. Para Lamac, a narrativa de que Marina estaria sendo "empurrada" para fora foi uma criação interna da ala da ex-ministra.
A tensão não é nova. Na verdade, é um cabo de guerra que vem se intensificando desde abril de 2025, quando a facção de Heloísa Helena venceu as eleições internas para a presidência nacional do partido. Desde então, a relação entre Marina e a gestão de Lamac tornou-se gélida. Heloísa Helena, inclusive, mantém uma ruptura com Marina desde 2022 e hoje se posiciona na oposição ao governo federal no Congresso.
Estratégia para o Senado e alianças com o Governo
Apesar do clima pesado nos bastidores, Marina Silva já traçou seu caminho para as urnas. Ela colocou seu nome à disposição para representar a federação liderada pelo PSOL, buscando a segunda vaga ao Senado por São Paulo. Ela dividiria a chapa com Simone Tebet, filiada ao PSB.
A deputada foi enfática ao dizer que sua decisão de ficar na Rede é uma forma de reafirmar o compromisso com um "campo democrático plural e diverso". Para Marina, a estratégia é clara: manter a identidade da Rede enquanto caminha ao lado de candidatos do governo, especificamente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad.
Vale lembrar que Marina quase voltou ao PT. Em janeiro de 2026, ela se reuniu com Edinho Silva, presidente nacional dos petistas, após receber convites para retornar ao partido que deixou em 2009. O fato de ter recusado essas propostas para ficar na Rede — mesmo com a briga interna — mostra o quanto ela preza pelo projeto original da sigla, ou talvez, a dificuldade de reconstruir sua imagem em outro partido neste momento.
Acusações de "Lawfare" e feridas do passado
O embate entre a liderança da Rede e Marina Silva não ficou apenas no campo da etiqueta política. O diretório nacional subiu o tom e acusou o grupo de Marina de promover um "lawfare" — a utilização do sistema jurídico para perseguir adversários políticos. A nota menciona uma "judicialização serial" com centenas de processos movidos contra a gestão atual.
Além disso, a cúpula do partido resolveu desenterrar fantasmas. Foram citadas posições passadas de Marina que causaram mal-estar interno, como:
- O apoio a Aécio Neves nas eleições presidenciais de 2014.
- A concordância com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.
- O apoio à intervenção federal no Rio de Janeiro em 2018.
Esses pontos são vistos pela ala de Heloísa Helena como contradições ideológicas que fragilizam a coesão do partido. Por outro lado, Marina defende que as decisões do partido deveriam seguir um "princípio de estruturação horizontal", algo que ela alega não ter sido respeitado pela atual direção, que rebate dizendo ter sido eleita democraticamente.
O que esperar para 2026
Mesmo com a troca de farpas, a Rede Sustentabilidade reafirmou que não questionou a filiação de Marina nem sugeriu sua saída. O partido segue apoiando a reeleição de Lula e a candidatura de Haddad. A sigla também anunciou que quer fortalecer alianças com o PV, PDT e PCdoB, formando um bloco contra o que chamam de "autoritarismo e negacionismo".
O cenário agora é de uma convivência forçada. Marina Silva estará na legenda, mas em guerra com a cúpula. Se ela conseguirá mobilizar a base da Rede sem o apoio do diretório nacional é a grande pergunta. No fim das contas, a disputa por São Paulo promete ser um campo de batalha não apenas entre partidos diferentes, mas dentro da própria casa de Marina.
Perguntas Frequentes
Por que a Rede Sustentabilidade reagiu com indignação à decisão de Marina Silva?
A indignação do diretório nacional, liderado por Paulo Lamac, deve-se à alegada falta de diálogo de Marina Silva com a cúpula do partido antes do anúncio. A liderança afirma que as especulações sobre a saída de Marina foram criadas pelo próprio grupo dela, e não pelo partido, gerando um desgaste desnecessário na imagem da sigla.
Quem são os principais aliados de Marina Silva na disputa ao Senado?
Marina busca a segunda vaga ao Senado por São Paulo através de uma federação liderada pelo PSOL. Ela pretende dividir a chapa com Simone Tebet, do PSB, e mantém apoio total à reeleição do presidente Lula e à candidatura de Fernando Haddad para o governo de São Paulo.
O que é a acusação de "lawfare" mencionada pelo partido?
O diretório nacional da Rede acusa o grupo político de Marina Silva de utilizar o sistema judiciário de forma estratégica para atacar a atual liderança do partido. Eles descrevem isso como uma "judicialização serial" envolvendo centenas de processos judiciais para desestabilizar a gestão eleita em 2025.
Qual a relação atual entre Marina Silva e Heloísa Helena?
A relação é de ruptura total desde 2022. Heloísa Helena, que é aliada do atual presidente do diretório, Paulo Lamac, faz oposição ao governo Lula no Congresso, enquanto Marina é uma peça central do governo, o que aprofunda as divergências ideológicas e políticas dentro da Rede.
Marina Silva considerou mudar de partido antes de decidir ficar?
Sim. Marina recebeu convites do PT, PSB e PSOL. Em janeiro de 2026, ela chegou a se reunir com Edinho Silva, presidente do PT, discutindo a possibilidade de retornar ao partido que deixou em 2009, mas acabou optando por permanecer na Rede para fortalecer o campo democrático.